A rapariga procurou uma moeda. Afinal colocou três moedas no copo que o cão segurava entre os dentes. Afinal não era um cão. Era uma cadela miserável, triste, velha e cansada. A vida é ingrata: amamentou os filhos, abandonou-o, foi abandonada. Nunca teve dono nem amor. Os cães serviam-se dela e deixavam-na na sarjeta, na solidão de uma barriga que denunciava mais bocas para comer… Anos e anos a vagabundear por aí, por aqui… por lado nenhum… e em nenhum lado encontrou uma mão que a acariciasse com tanta ternura como aquela, numa tarde tão quente e longa. O nome… A rapariga queria saber o nome! Sem nome. Desconhecida. Abandonada. É só escolher.
O menino chama-se Mário. Só agora descobriu… Há três meses que viaja com ele de feira em feira, numa carrinha pequena e fedorenta, com mais três cães e dez pessoas. Pessoas? Não… bebem vinho e batem nas crianças e nos animais. Nunca nenhum lhe chamara Mário… Era o cabrão ou o filho da p…, era o estupor da p… que o pariu! Era… era um menino de olhos grandes e mãos pequenas, demasiado frágeis para suportar um velho acordeão que fazia parte dele como as pulgas dos animais vadios. Um parasita que o obrigava a humilhar-se, tocando sem lágrimas tons graves das dores que sentia e as notas agudas do amor que não tinha.
- E que idade tens? – continuou a inquirir a rapariga.
Sete anos… sete anos de desprezo.
- Já sabes ler, andas na escola… atalhou a rapariga.
Depressa colou os olhos ao chão… para não deixar ver as lágrimas. A vida daquele menino não passa pela magia das letras e dos algarismos, das histórias e das contas. Contas só as que tem de dar ao dono, no final do dia, em troca de um rosnar “Ah! Cabrão! Se amanhã não trazes mais…”
Paula Costa
Há mais de 10 anos escrevi este texto. Guardei-o. Para mim, aquela realidade chocou-me demasiado. Sempre senti a esperança de, com o progresso, não voltar a testemunhar estas realidades… Olho para trás, não sei do memino. É muito fácil adivinhar que não faz parte nem de estatísticas nem de prioridades políticas… Assim é o progresso!
Recentemente, numa das ruas da Baixa, voltei a ver o mesmo cenário… Impressionei-me muito, desta vez levava o meu filho de oito anos, pela mão. Ambos parámos. No silêncio da cumplicidade, o meu filho entregou uma moeda àquele rapaz… O que dizem estes olhos?
Sem sonhos, sem ser… a sobreviver.