Andando por aqui a escrever palavras soltas… umas, com muitos sentidos, outras, muito sentidas…

 

Requiescant in pace

Sentada junto à porta, Carla não sabia o que fazer. A noite desenhava-se no horizonte: névoa ténue. Ali, ali naquele degrau, tantos serões havia passado, sem saber bem o que fazia …

portaO avô dizia-lhe que o Céu olhava por ela, porque ela olhava as estrelas. Carla (ou “Lita”, como os avós a tratavam), cresceu com as imemoráveis noites alentejanas. Primeiro, acreditava – quer o pai quer a mãe eram estrelas daquele Céu constante; depois, revoltada, zangou-se – os colegas desenganaram-na – «disseram-me… que… os mataram naquilo da… Reforma Agrária!”. Um longo silêncio petrificou-os. Abraçaram-se, por trás daquela porta, guardiã de quatro simples paredes de adobe – fizeram o luto.

Entretanto, aquela porta abriu-se para a linda Lita ir conhecer mundo: ia p’ra Lisboa, sim senhor! Ia estudar Leis, queria salvar os pobres das garras da JUSTIÇA.  (“Justiça”, pensa agora a Dr.ª Carla. Depressa percebeu que a venda é transparente, a balança não está calibrada…) Especializou-se em Direito do Trabalho, conhecida como especialista em causas perdidas. Protestou. Recorreu. Argumentou. Contra-argumentou. Em vão…

Iludida com um conceituado escritório de advogados, com secretária particular, mudou de gabinete, de especialidade, de vida.

Emaranhada numa teia invisível – viagens; reuniões; hotéis; tribunais; audiências; julgamentos  – adiou o amor. Nunca tinha tempo para visitar os avós – “Ora, Esperança é já ali, depois apareço…”. Quando se lembrava, telefonava para o café da aldeia. Certa ocasião, ouvira a dona Rita dizer «Ó menina Lita, a sua avozinha já está na Paz do Senhor!» … Mas que secretária incompetente não a avisara? – Bem o tentara, mas limitou-se a ouvir o habitual «Agora, NÃO!». O mundo parou: urgente, emergente, inadiável, prioritário  – desapareceram. Meteu-se no carro. O Alentejo é já ali, repetia. Tocou o telemóvel. O coração sobressaltado. Parou. «Dr.ª Carla, lamento informá-la: o seu avô faleceu».

Chegou à aldeia, a menina Litinha… Todos sentiam a sua dor.

Ei-la ali. Aquela porta está fechada – as paredes gritam-lhe “Abandonaste-nos!”, eco infernal que a atormenta. Há outras portas: uma, com placa dourada – Dr.ª Carla Moreira –que lhe abrirá muitas outras portas; outra, é a do cemitério, leva-a uma lápide – Requiescant in pace. Todos ali a sentem. Carla não…

 

À minha mãe.

 Quem és tu, Mãe? És o abraço que se prolonga por todas as noites da vida… és a palavra de atenção…, és a memória, a lembrança do riso e do ralhete de infância…

Ficaste gravada na minha alma, fazes parte de mim como o sofrimento faz parte dos teus dias… Os hinos à Alegria, ao Amor,  à Paz, à Nação… as estátuas, as condecorações… tudo, Mãe, tudo…e, para ti, não há nada… Muitas vezes nem um beijo (porque até já sou grande e é uma vergonha andar debaixo das tuas saias…)

…Acordas com o sol, com o cansaço e com a dor. Levas as mãos ao rosto para limpar o suor… Caminhas para a saudade dos teus tempos (os “bons e velhos tempos”), à tua volta é tudo tão estranho, Mãe… As Mães já não são como tu. A vida é diferente. E tu lá te arrastas pela mudança fora… Já não levas sonhos ou ilusões, como antigamente, quando conheceste o Pai… Levas as saudades, a angústia de não te encontrares com este mundo tão estranho: um mundo onde quase não há mães – há amas, educadoras, psicopatas e neuróticos que matam os filhos e os dos outros… Mas Mães?! Como tu, não, não há. Limpavas-me as lágrimas com um estalo… Mas também não eram lágrimas… As lágrimas são verdadeiras agora, agora que constato que tenho pouco tempo para ti. A vida foge-
-me… As palavras nunca dizem o que queremos… Sabes, contigo aprendi que ajudar os outros é o que mais feliz nos torna… e quando as coisas não vão bem, lembro-me disso: a melhor maneira de amar é ajudando… deixa-me ajudar-te, deixa-me lembrar-te que és o bem mais precioso que algum homem pode jamais ter…

És a fertilidade, a sensualidade, a esperança, o amor… Se tudo dependesse de ti, o Mundo seria um lugar recôndito como o teu ventre… e todo o seu fruto seria como os teus filhos. Só tu, Mãe, sabes como embalar e compreender o teu filho.

Sem ti, que esperar? Como amar?

Obrigada, Mãe, ensinaste-me a viver!

Tua filha.

Paula (1992, em Braga, à espera do autocarro) 

 

(com)memoriar…                

 paredes_de_coura.jpg

As mais antigas recordações registadas na minha memória são de rostos femininos. O de minha mãe tão terno e tão meigo. As minhas avós são já personagens do meu imaginário. A Tiangelina não sei se a recordo das fotos se da soleira da larga porta da cozinha, onde passava tardes de contemplação, enquanto eu brincava com latas de conserva: inventava viagens deslumbrantes e construía sonhos… Lá dentro, na cozinha, havia um armário verde de madeira, muito grande, feito pelo meu avô. O que lá estava dentro, era o seu tesouro… A cozinha era muito alta, com uma lareira grande. Virada para o fundo do lugar, para os montes e para o mundo estava uma pequena janela, encaixada numa parede grossa, muito grossa. O quarto reflectia a fé de quem tinha os anjos e os santos por guias. Ainda me lembro de uma imagem de São Torcato, sempre me impressionou, até senti alguma vaidade por a minha avó partilhar a vida com aqueles santos, para mim ainda senhores santos
Do outro lado da casa estava um quarto mais pequeno, com uma cama que ainda tinha o colchão de feno (quando se mudava, para mim era uma festa – não era todos os dias que via as tripas de um colchão). A janela era maior e mais alta, de onde também se via o rio e o verde, o sol e a saudade. Na cómoda, para além da roupa igual na cor negra, havia raminhos de alecrim, que deixavam no ar um perfume doce. No tempo das maçãs vermelhas o cheiro era diferente. Eram colocadas no meio da roupa, resultando numa sinestesia de sabores e cheiros inaláveis mas inefáveis. E era assim o quarto da outra avó, essa sim, minha companheira de infância e do resto da vida. Tenho medo de não conseguir ensinar aos meus filhos a herança da Tiana. Lembro-me de todas as suas rugas, das mãos papudas e fofas, prontas para ajudar, acarinhar… do seu jeito de caminhar nuns chinelos pretos, que duravam muito tempo, do lenço, também preto, ora à cabeça ora ao pescoço… de estar sentada na sala, no sofá, ao sol… calada.
Mas é da alegria que eu me lembro melhor, do sorriso, do riso, da franqueza com que enchia um copo de vinho para dar a alguém ou com que ia buscar um pão ou um prato de sopa para dar a um pobre. Como é que ele se chamava? O «Chico Lanheses»… Havia outros, rostos sem nome…
Antes de andar na escola, a minha avó era a minha companheira. Ia com ela às folhas para a rês, bebíamos o chá na casa da Tia Prazeres, que era mais saboroso quando havia uns biscoitos de limão. Ouvia a conversa das senhoras ou então sonhava: olhava para um quadro e imaginava, olhava para uma flor no jardim e mudava-lhe a cor e a forma… Num Domingo, ao vir da missa com a Tiana, a urgência emergiu: levantou um pouco a saia, que era comprida, e, num acto natural, ei-la aliviada… Que importa? As mulheres daquela altura eram muito práticas. Não tinha mala nem precisava de bilhete de identidade: todos a conheciam e ela conhecia todos. Não tinha carteira. As moedas, escudos e tostões, eram guardadas num nó cego que dava no lenço da mão… Não tinha telemóvel mas estava sempre presente quando era preciso, onde era preciso.
Um dia foi a Lisboa. Os olhos arregalados devoraram a cidade. A viagem foi grande. Saímos ainda o dia não tinha nascido, chegámos com a noite, e com a graça de Deus, a quem rezámos fervorosamente pelo caminho.
Analfabeta mas diplomada na vida, abriu o espanto com os olhos. Sentir é melhor que saber… Há tanta gente que mão sabe sentir…
Em todas as eleições dizia a rir tanto… «Pus a cruz em todos…». Tinha razão. Se todos se unissem, governariam melhor o mundo…As mão para dar, as palavras a cantar e a encantar, os dias a amar o tudo e o nada… com alegria, com pureza, com a inocência da criança que desperta…ao nascer.Assim a vejo. Muitas vezes não conseguimos imaginar o rosto das pessoas que amamos … Tentamos mas fica um vazio. Dela, lembro-me. «Quando eu morrer, cantem», dizia sentidamente. No íntimo cantámos todos. A minha mãe acordou-me e disse, Paula, a Tiana morreu. Sem sobressaltos. Vestimo-la. Muito naturalmente, como, se calhar, naturalmente, a vestiram quando nasceu. Ficou a serenidade de um caixão, na sala. A família juntou-se, os vizinhos e amigos, todos amigos… Os rapazes levaram o caixão. Vimo-la partir da nossa vida, apenas por um segundo breve e tranquilo… porque ficou. Ficou porque deu sem esperar receber. Ficou porque amou os nossos defeitos. Ficou.  

  

As Mulheres de Cabanela

Cabanela era dominada por mulheres. A Tia Rosa do Lino, mãe de muitos filhos e mulher de um filho “postiço”. A todos os filhos deu pão e amor. Trabalhava a terra, acompanhava o marido, tratava do gado, ordenhava as vacas e sorria às crianças, deitava a mão a quem precisava. A Tia Lucrécia, a mulher do Tio Zé, sempre me pareceu serena mas distante, sentada à lareira, já doente. A Tia Rita, a mulher do Tio Zé Capela, era muito doente. Lembro-me de a visitar e de a ver já morta. Depois disso, o Tio Zé morreu aos poucos – é que esta mulher também tinha sido uma grande mulher. A Tia Francelina, a mulher do Zé Ferrador, às vezes ralhava connosco ou mostrava uma cara mais feia… A Tia Leta era mais nova. Ainda lidava muito. A Tia Rosalina era o papão, porque tinha bigode e porque resmungava quando lhe íamos às maçãs. Mas mais tarde descobri que era boa pessoa. Vivia numa casa pequenina. O chão era de terra batida. Viúva, passou os últimos dias da sua vida numa cama pequena, virada para uma janela, à espera da morte. A Tia Eva era nova mas não era casada. Era muito simpática. Gostava muito de crianças e até nos dava bolachas. Vivia com o pai e teve uma morte injusta. Era muito amiga de uma outra Eva, a mulher do Tio António… 
Paula Costa
Textos iniciados em 2000, quando o meu pai morreu. Estamos em 2007.A minha avó morreu em 1986.Os textos não estão terminados…

 

VIDA(s)VIDA(s)VIDA(s)VIDA(s)

caminhando

Sonhei…
Menina queria ser mulher.
Vivi intensamente.
Dei-me incondicionalmente. 
Sonhei.
A vida foge.
Perdi o comboio da Felicidade. 
Fiquei na estação a sonhar.
Errei na cidade…
Vivo…
E sinto lamentavelmente que
Entrei no filme errado,
Enganei-me na porta do prédio,
Escolhi o canal ao lado
Mergulhei no tédio. 
O sonho que sonhei…




O tempo que esperei
O amor que não vivi
O tanto que dei…escalando1.jpg
 O tudo que perdi. 

O sonho que sonhei…

Não o vivo.
Tento Tento Tento
Em vão…
Lamento Lamento Lamento
Em vão…
 Luto Batalho Ralho
Em vão… 
Sou Mulher?
Em vão…
E se puder?
Serei a menina que quer ser mulher!       

       Paula (1998)
                        

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